A internet é um meio de comunicação com a característica única de ser ao mesmo tempo de massa (de 1 para muitos) e individual (de 1 para 1). Mas se pensarmos nos sites web, a maior parte deles tem uma única versão para todos os seus leitores. Uma web em que os sites se moldem aos interesses de cada leitor será a plena realização de um potencial intrínseco da internet.
Por quê personalizar?
Porque paradoxalmente a extraordinária quantidade de informação hoje já disponível na internet é um obstáculo a que consigamos acessá-la de forma eficiente. É necessário que a tecnologia da informação ajude cada vez mais o leitor a encontrar os conteúdos de seu interesse. E até mesmo aqueles conteúdos que, por não conhecê-los, ainda não são do seu interesse....
Muitos sites possuem tanto conteúdo que uma página inicial genérica não facilita a que seu visitante o usufrua de forma ampla. Um site personalizado tenderá a aumentar a navegação do leitor e estimulará o seu retorno posterior. Num site de comércio eletrônico a oferta personalizada de produtos poderá reverter em mais vendas.
Mas há controvérsias... Jakob Nielsen, guru da usabilidade, acha que é melhor para o internauta um site com boa usabilidade do que um site personalizado. Eu concordo! Uma boa usabilidade é um requisito primordial para um bom site. Mas num mercado altamente competitivo, creio que isto não será o suficiente.
Quando?
Lá pelos idos de 1999 "personalização" era uma das "buzz words" da moda na internet. O site da Amazon surpreendia com suas recomendações personalizadas de livros e muitas empresas americanas, no auge da bolha da internet, investiram pesado nesta direção. Mas as formas mais sofisticadas de personalização exigem muito investimento e, junto com o estouro da bolha, muitos projetos de personalização não deram o retorno esperado. O tema passou a ser mal visto. Saiu da moda.
Mas algumas coisas não "pegam" de imediato, só com o tempo. Exemplos? sites de comunidades, RSS, etc. Acredito que com o tempo os internautas vão cada vez mais demandar que os sites exibam conteúdos adequados aos seus interesses individuais.
E chegará o momento em que o retorno gerado pelos sites em geral justificará o investimento em personalização. Apesar do passado duvidoso, no presente a personalização já tem dado alto retorno a muitos sites de e-commerce.
Como personalizar?
É difícil fazer um site personalizado? Na sua forma mais simples, não. É só fazer um site onde o leitor escolhe se prefere o assunto A ou o B, e esta informação é gravada, por exemplo, num cookie. Depois, toda vez que o leitor requisitar a página inicial do site o sistema no servidor lê o assunto preferido no cookie, lê do banco de dados o conteúdo A ou B e exibe na tela.
Mas cito aqui duas dificuldades para a implementação de personalização.
1- A carga que soluções baseadas em banco dados geram nos servidores, quando se trata de sites de grande acesso.
Não tem jeito, soluções de personalização mais complexas exigirão grande capacidade de processamento, tanto de banco de dados quanto da aplicação no servidor. Isto tem um custo.
Mas conforme citamos em post anterior muitas soluções de personalização permitem que o processamento seja feito de forma distribuída, exigindo processamento apenas do browser de cada leitor. Para isto informações de preferência ou perfil do leitor podem ser gravadas em cookie e o browser comanda seletivamente o carregamento dos conteúdos personalizados (que já deverão estar previamente gerados no servidor).
2- A questão da escolha do conteúdo a ser exibido para o leitor.
Em muitos casos o melhor é o óbvio: permitir que o leitor escolha explicitamente o que deseja. Melhor ainda se a escolha puder ser feita de forma intuitiva, diretamente na área a ser personalizada. Se o leitor tiver que navegar até página específica, ler uma explicação e ter que fazer diversas escolhas de conteúdo, uma parte do público não a utilizará - mesmo quando o benefício oferecido for grande. Usabilidade...
Para estender os benefícios da personalização a toda a audiência, a TI também pode assumir para si o trabalho da escolha do conteúdo a ser personalizado.
Um site muito grande pode exibir com mais destaque para o leitor links para seções que ele mais costuma visitar. Ou destacar conteúdos que provavelmente interessam ao perfil demográfico dele (futebol para homens, shows para jovens, etc.).
Algumas destas possibilidades podem ser implementadas de forma mais simples, (inclusive com processamento apenas no browser). Mas é neste terreno de escolha do conteúdo que surgem as aplicações de personalização mais complexas, chamadas de sistemas de recomendação.
Sistemas de recomendação
Existem diversos tipos de sistemas que tem a capacidade de recomendar conteúdo. Dois deles são os mais utilizados: Filtragem Baseada em Conteúdo e Filtragem Colaborativa. Existem diversos algoritmos diferentes para implementar cada um deles, e ainda diferentes possibilidades de combinar ambos num mesmo sistema, para que os pontos fortes do primeiro melhorem os pontos fracos do segundo, e vice versa. Existem algumas soluções em software livre.
Filtragem Baseada em Conteúdo (FCB):
Este tipo se aplica à recomendação de textos. Descrevendo de forma resumida, o sistema registra as palavras dos textos lidos pelo visitante. Quando um novo texto é publicado, é verificado se ele tem uma "quantidade" grande de palavras semelhantes às dos textos que o visitante costuma ler. Se sim, o novo texto deverá ser recomendado para o leitor.
Filtragem Colaborativa (FC):
Este tipo se aplica à recomendação de qualquer tipo de item (CD, restaurante, filme, etc). Ele tem o nome de colaborativo porque é baseado nas preferências em comum de grupos de pessoas.
Também descrevendo de forma resumida: primeiro o sistema coleta informações das preferências de um leitor (através de perguntas explícitas ou por monitoramento da navegação). Depois identifica um grupo de pessoas com preferências semelhantes às dele, e daí identifica itens bem avaliados por este grupo e que ainda não tenham sido avaliados/acessados pelo leitor. Estes serão os itens recomendados.
Cada tipo tem seus prós e contras. Em geral o filtro baseado em conteúdo faz boas recomendações com mais frequência. Já o filtro colaborativo, o mais utilizado, caracteriza-se por conseguir fazer recomendações ótimas (e mesmo surpreendentes), embora não tão frequentemente.
Para aprofundar o tema, agora eu é que faço recomendações:
- O livro "Personalização na Internet", de Roberto Torres, que faz um panorama sobre sistemas de recomendação.
- O site http://movielens.umn.edu. É um site onde você dá notas para filmes que você já viu e ele oferece recomendações personalizadas, baseado na técnica de filtragem colaborativa. O site é mantido pela universidade de Minnesota, que o utiliza para desenvolver pesquisas na área de sistemas de recomendação. Atualmente estão pesquisando a capacidade que os sistemas de filtragem colaborativa possuem, de identificar grupos de pessoas com preferências em comum, para estimular entre elas a criação de comunidades virtuais.
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