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domingo, 27 de janeiro de 2019

Google TV: a convergência entre a internet e a televisão chegou

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2010]

Vivemos hoje expostos a uma enxurrada de novidades tecnológicas. O destaque do ano até agora certamente foi o iPad, mas creio que teremos concorrência... O lançamento comercial da Google TV dever ocorrer nos EUA já agora em outubro de 2010 - a tempo das vendas de Natal. E em todo o mundo em 2011.

Sendo uma iniciativa do Google, podemos pensar que o sucesso é garantido. Mas não é bem assim, basta lembrar produtos da empresa que não emplacaram, como o Wave, o Lively ou mesmo o Nexus One. Também temos que considerar que já existem produtos voltados a fazer alguns tipos de integração da internet ao aparelho de TV (além da opção de simplemente ligar diretamente seu computador à tela de TV). Mas até agora nenhuma destas formas atraiu grande número de adeptos.

Vamos então conhecer o conceito deste novo produto, em vídeo do próprio Google (em inglês, 2m21s):



Portanto a Google TV aposta numa efetiva integração entre internet e TV. Possibilita que o consumo da internet se dê no mesmo ambiente de praticidade e conforto já dedicado à televisão, e permite que sites web e aplicativos gerenciem o conteúdo exibido na televisão.

De que é composto?

Para usufruir da Google TV você precisará primeiro ter uma conexão à internet wi-fi de banda larga.

Você terá que adquirir uma "companion box" (mais uma caixinha...), fabricada pela Logitech e equipada com chips Intel. Ela virá acompanhada de um controle remoto com teclado e touchpad. Neste caso você precisará já possuir um aparelho de televisão com conexão HDMI.

Mas também existirá a opção de comprar uma TV que já virá preparada, com o hardware/software necessários embutido - inicialmente a Sony oferecerá um modelo. Também será lançado aparelho de blu-ray já preparado.

O descrito acima é o suficiente para acessar a internet na tela da sua televisão. Mas para possibilitar a integração de sites e aplicativos com o conteúdo da programação da tv é necessário que você tenha uma "set top box" de um serviço qualquer de tv a cabo ou satélite.

O hardware da Google TV rodará o sistema operacional Android (inicialmente versão 2.1) - portanto este sistema deixará de ser exclusividade dos dispositivos móveis. Rodará o browser Chrome e exibirá normalmente qualquer site da internet (inclusive com Flash).

O que dá para fazer?

Começando do mais usual para o mais convergente, vamos ver algumas formas de uso da Google TV:

- Você poderá navegar normalmente pela web. Mas alguns usos se tornarão mais interessantes, como assistir a vídeos online - como no YouTube, ou mesmo utilizando sites de aluguel de filmes online (streaming de filmes). Ou ver álbuns de fotos seus e dos amigos no Flickr ou Orkut, agora em tela grande.

- Você poderá rodar na sua TV os milhares de aplicativos que atualmente estão disponíveis para os celulares que usam Android. E novos, que a comunidade de desenvolvedores criará explorando a tela grande.

- Tanto através de sites quanto de aplicativos Android, a Google TV será uma ótima plataforma para jogos. Será muito atrativo para o usuário não interessado em adquirir os consoles de jogos mais sofisticados.

- Navegar na web enquanto assiste a um programa de TV usando picture-in-picture. Por exemplo, para consultar a tabela do campeonato e as estatísticas ao mesmo tempo em que vê o  jogo. A interatividade será muito facilitada - será fácil assistir a novela e comentar no Twitter, ver um telejornal e repercutir uma notícia com seus amigos no Facebook. Ou criar um site para fãs de um seriado debaterem e recuperarem informações durante e depois da exibição do capítulo do dia.

A convergência

Mas a efetiva integração entre a televisão e a internet que a Google TV proporcionará só será alcançada alguns meses após o lançamento comercial do produto. A partir de 2011 web sites e aplicativos Android que estiverem sendo executados nesta plataforma poderão utilizar uma api que dará acesso à grade de programação e conteúdo dos canais da sua TV. Veja algumas possibilidades de uso:

- Você poderá fazer buscas que vasculhem simultaneamente a programação de TV e internet.

- Um desenvolvedor do projeto da Google TV, cuja esposa não fala inglês, criou uma aplicação que usa a api de programação da TV para acessar o closed caption do programa que a pessoa esteja sendo assistido. Em tempo real a aplicação submete o texto do programa a outra api, do Google Translate, e oferece legendas traduzidas para qualquer língua desejada.

- Também será possível usar um celular Android como controle remoto. Já está em desenvolvimento um aplicativo que utiliza o reconhecimento de voz do Android para você falar no seu celular o nome do programa que deseja assistir e o aplicativo o encontrará na  televisão. Controle remoto por voz.

- Sites ou aplicativos poderão ser desenvolvidos de modo a oferecer conteúdo e funcionalidades sincronizados em tempo real com a exibição de determinado programa na TV.

Esta integração entre a programação da tv e a internet é um atalho para algumas formas de interatividade que só imaginávamos alcançar com o uso pleno da tv digital.

O meio e a mensagem

A tecnologia para construção de sites e aplicativos para a Google TV não muda. Mas a experiência do usuário será bastante diferente. Deve-se perseguir uma superior facilidade de visualização e uso dos sites. Seu usuário provavelmente estará refastelado num sofá distante alguns metros, num momento de descontração, possivelmente acompanhado de familiares. Assistir à TV é muito simples, navegar na web também precisará ser.

A Cauda Longa da Internet

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2010]

As facilidades de produção, disponibilização e busca oferecidas pelo meio digital, e a internet em particular, fazem com que produtos economicamente insignificantes no mundo físico se tornem, quando disponibilizados no meio digital, tão valiosos no seu conjunto quanto os best-sellers.

Desde o início dos sites de comércio eletrônico me pareceu natural que lá pudéssemos encontrar uma variedade de produtos muito maior do que nas lojas físicas. Afinal de contas, no mundo virtual não é necessário arcar com os altos custos que as lojas físicas acarretam.

Mas em 2004 Chris Anderson, editor da revista Wired, foi além. Ao fazer contatos com executivos de empresas de comércio eletrônico percebeu um fenômeno em comum: por maior que fosse a variedade de produtos oferecidos, sempre existia demanda, mesmo que pequena, por praticamente todos os produtos. A partir desta informação começou a coletar dados.

A Amazon tinha na época 3,7 milhões de títulos de livros sendo oferecidos em seu site. Uma livraria física de grande porte tinha em média 100.000 títulos sendo oferecidos em suas lojas - obviamente os títulos de maior vendagem. Pois bem, ele constatou que a vendagem dos títulos que não interessavam às lojas físicas por serem pouco procurados, mas que estavam disponíveis na Amazon, representava 25% do total das vendas de livros do maior site de comércio eletrônico do mundo.

A Netflix, uma espécie de site de locação de DVDs, oferecia 55.000 títulos, contra 3.000 títulos em média de uma loja física da Blockbuster. O faturamento com o total de títulos de baixa procura era de 21% do total da Netflix.

A Rhapsody, de venda de músicas online, oferecia 1,5 milhões de faixas, enquanto a maior vendedora de CDs dos EUA, a cadeia Wal-Mart, oferecia 55.000. Neste caso o faturamento com as faixas que individualmente tem menor vendagem chegou a 40% do total da loja virtual.

Colocando num gráfico, a oferta de produtos na internet apresenta o seguinte perfil: alta concentração de poucos produtos com muitas vendas ("os mais vendidos..."), seguido de uma forte queda e então uma linha quase horizontal expressando uma infinidade de produtos de baixa vendagem individual.

Chris Anderson tomou emprestado da estatística o nome deste tipo de curva e batizou o fenômeno de A Cauda Longa ("The Long Tail"). Escreveu em sua revista um artigo que teve grande repercussão, fez blog e escreveu livro.

Note que o conceito da cauda longa não se aplica somente à venda de produtos. O acesso gratuito a conteúdo digital também apresenta o mesmo comportamento. Por exemplo, a disponibilização gratuita de ferramentas para publicação de sites pessoais e blogs gerou uma oferta enorme de conteúdo, contribuindo para o desenvolvimento de uma curva de cauda longa nos acessos a estes sites.

Este fenômeno propiciado pelo meio digital traz consequências para além da internet. Você conhece alguém que tem um MP3 player? Esta pessoa costuma ouvir principalmente os grandes sucessos do momento ou dedica grande tempo a descobrir e ouvir artistas menos conhecidos, porém mais ao gosto dela? O comportamento de cauda longa reflete uma mudança cultural de fortalecimento dos nichos de interesse. O sub-título do livro de Chris Anderson é "Do mercado de massas para o mercado de nichos".

Outro dado importante identificado nas pesquisas: a cauda tem se alongado mais com o tempo. Ou seja, é de se esperar que o mercado dos nichos continue aumentando, se comparado com os "campeões de audiência".

O autor identificou 3 forças propulsoras do fenômeno da cauda longa:

- Maior acesso a ferramentas para produção de determinados itens. Isto propicia um aumento na variedade da oferta. Nunca foi tão fácil produzir um CD de qualidade profissional. Se você não consegue publicar um livro no mundo físico, disponibilize-o na internet. Ou publique num blog.

- Maior facilidade na disponibilização dos produtos/itens: um site está acessível para o mundo todo. Se um site expõe 10.000 produtos, pouco esforço tecnológico será necessário para passar a expor 100.000. E quando o produto é digital, praticamente inexistem os custos de estocagem e envio. Um jornal impresso publica algumas poucas centenas de notícias por edição. Já um site de notícias pode disponibilizar 3 ou 4 vezes mais conteúdo, e com menor custo.

- Maior facilidade de encontrar produtos/itens de interesse
A última força incentivadora da cauda longa na internet é a facilitação do encontro de demandas específicas com as ofertas disponíveis.

O facilitador mais conhecido é o site de busca. Oferece ótimos resultados para o internauta que esteja procurando uma agulha específica no meio do maior palheiro jamais criado pelo homem - a web.

O outro facilitador que pode alongar a cauda de páginas acessadas de um site já foi assunto de post anterior neste blog, a personalização de sites. O visitante de um site deve ser auxiliado, através de links personalizados, a retornar ou mesmo encontrar seus nichos de interesse. Não é uma coincidência que a Amazon tenha sido precursor em personalização e sistemas de recomendação de produtos, e hoje seja o maior site de comércio eletrônico do mundo.

Programação no servidor ou no browser?

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2006]

Geralmente a idéia de desenvolvimento de sistemas para web está associada a aplicações que rodam nos servidores, utilizando  java, .net, bancos de dados. Mas parte das inovações ocorridas nos sites está em avanços na utilização das técnicas de programação em javascript, que é processado no browser do internauta.

Desde o início da web a construção de sites é feita basicamente por dois grupos de profissionais: os webdesigners e o pessoal de desenvolvimento de sistemas.

Os webdesigners, além da concepção visual, cuidam da codificação do html, que é uma linguagem de marcação processada no browser (o chamado lado "cliente"). Os desenvolvedores utilizam linguagens de programação processadas nos servidores, como asp, php, java, etc. (o chamado lado "servidor").

A programação no lado cliente - muito além da crítica de campos

Mas no lado cliente, no browser, também existe a utilização da linguagem de programação javascript. Os dois profissionais a utilizam. Porém, a maioria dos webdesigners não conhece programação para fazer uso mais amplo dela. E muitos dos desenvolvedores historicamente subestimaram esta linguagem, talvez pelo fato dela não acessar os importantes bancos de dados do lado servidor. Ouvi muitas vezes a opinião de que "javascript é simples, serve para fazer crítica de campos de formulário".

Javascript não é simples. É orientada a objeto e permite manipular todos os objetos de uma página - não apenas os campos de um formulário.

Todo este poder foi inicialmente utilizado para a criação de efeitos visuais (o dhtml - javascript manipulando dinamicamente elementos do html). Mas as terríveis incompatibilidades entre browsers contribuíram para empurrar os efeitos visuais para o Flash (tecnologia proprietária que também roda no cliente, poderosa para animações). Porém, com o passar do tempo as possibilidades da programação no lado "cliente" foram se revelando.

Explorando a técnica para inovar

- Como fazer para publicar um trecho de conteúdo de um site em diversos outros, sem a complexa tarefa de integração entre servidores?

Basta que no servidor de origem o conteúdo seja gerado em javascript. Os demais sites interessados podem codificar suas páginas para carregar este conteúdo diretamente para o browser do internauta. É assim que funciona uma das maiores fontes de receita do Google, o Adsense. Não, não foi o Google quem inventou esta técnica, cito aqui pois dá credibilidade à solução.

- Como fazer um site personalizado sem com isto demandar aumento de capacidade dos servidores?

Basta fazer com que o processamento da escolha de qual conteúdo exibir seja feita por javascript. A escolha pode ser baseada em cookies com as preferências do leitor e somente o conteúdo desejado é carregado do servidor. Parte das possibilidades de personalização de sites pode ser atendida com esta técnica, que tem custo zero em relação à infraestrutura.

- Como melhorar a navegação do internauta, evitando a lentidão das trocas de página?

Basta utilizar a "nova" técnica denominada Ajax, que permite comunicação com o servidor e atualização de parte do conteúdo da página, sem necessidade de substituição completa da mesma. Também não foi o Google quem inventou, mas o seu Gmail.com foi o maior difusor desta técnica.

Para agilizar o desenvolvimento de sites que fazem uso mais intensivo de javascript podem ser utilizadas bibliotecas gratuitas de rotinas (ex.: Dojo, Prototype).

E finalmente, temos hoje complexas aplicações funcionando na web e que são baseadas em javascript. O Writely é uma delas. Um editor de textos gratuito,  completo e fácil de usar, que permite edição colaborativa de documentos, e é ótimo para quem tem que escrever ou consultar documentos a partir de vários lugares diferentes. Escrevi a maior parte deste post nele. O Google não tinha nada a ver com o Writely, mas o pessoal de lá gostou tanto que... o compraram.

Open Social e o novo papel das redes sociais

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2008]

O surgimento das aplicações sociais, que promovem a interação do usuário com sua rede de amigos, é um marco na direção de um papel de maior importância reservado às redes sociais na internet.

Dentre muito em breve os usuários do Orkut poderão acrescentar em seus perfis pessoais, aplicações (programas) criadas por outros sites ou por desenvolvedores autônomos. Estas aplicações, que ocuparão um espaço da tela do Orkut, poderão trazer para este site conteúdos já existentes em outros sites. Esta forma de integrar num site conteúdo externo a ele não é uma novidade na web, e a estas aplicações se dá o nome de widget ou gadget.

A novidade é que o Orkut vai no mesmo momento copiar o passo além que a rede social americana Facebook deu em maio de 2007. A idéia foi permitir que estas aplicações, que rodam dentro do seu site, acessem a relação de amigos do usuário que está logado. Com isto, estas aplicações podem criar as mais diversas funcionalidades de interatividade entre estes amigos.

Com isto vimos uma poderosa integração de dois importantes conceitos já existentes na web -  redes sociais e widgets - gerando um novo conceito: as aplicações sociais.

OpenSocial é o nome dado pelo Google à sua iniciativa de criar um padrão para o desenvolvimento de aplicações sociais. É uma reação ao grande sucesso que o Facebook obteve com sua brilhante idéia. O OpenSocial está sendo desenvolvido em conjunto com inúmeras outras redes sociais além do Orkut: MySpace, LinkedIn, Friendster, Hi5, Salesforce.com, etc.

Tecnicamente falando, Open Social é o conjunto de APIs que permitem a uma aplicação acessar a relação de amigos do usuário, seus dados e fazer interatividade entre eles. Esta nova API (que está para ser lançada na versão 0.7) para ser utilizada necessita de outra API já mais "antiga", a do Google Gadget. Diferentemente da plataforma oferecida pelo Facebook, na proposta do Google as aplicações são codificadas em Javascript e processadas no browser do leitor. É possível ter uma aplicação de sucesso rodando a custo zero de infra-estrutura (arquivos hospedados num site gratuito do Google, processamento das apis rodando no Orkut e a aplicação rodando no browser do leitor). Os desenvolvedores autônomos são responsáveis por grande parte das aplicações. Algumas empresas de desenvolvimento de software foram criadas exclusivamente para o desenvolvimento destas aplicações - são inclusive as donas de várias das aplicações de maior sucesso.

Para que serve?

Testes de conhecimento feitos entre amigos para ver quem faz mais pontos, versões digitais dos antigos jogos de tabuleiro, troca de "presentes virtuais", questionários para identificar os amigos com mais/menos afinidades. A grande maioria das aplicações mais utilizadas atualmente no Facebook é de entretenimento (alguns diriam de futilidades...). Existem também as aplicações vinculadas a sites já existentes na web, promovendo interatividade em torno do conteúdo destes sites. Dentro do universo de mais de 17.000 aplicações disponíveis hoje, existe espaço para tudo.

2007 foi um ano de crescimento espetacular do Facebook, em grande parte por causa das aplicações sociais. Na virada para 2008 a audiência do site começou a estabilizar nos EUA e algumas aplicações começaram a cair em desuso. Passada a empolgação inicial, talvez tenhamos agora o sucesso de outros tipos de aplicação. O tempo dirá.

Para um site web, da mesma forma que rss, newsletters, sites móveis, widgets "não sociais", as aplicações sociais são mais uma maneira de difundir seu conteúdo e marca, e atrair audiência. No Facebook, como também será no Orkut, as aplicações sociais podem veicular publicidade, desde banners até links patrocinados.

O sentido das coisas

"The Net links computers, the Web links documents. Now, people are making another mental move. (...) 'It's not the documents, it is the things they are about which are important'." Tim Berners-Lee

Tim Berners-Lee, o inventor da WorldWideWeb, escreveu recentemente um post em que formula que a internet, em seu primeiro momento, era uma ligação entre computadores (o que permitia p.ex. a troca de mensagens e a leitura de textos simples). Quando ele inventou a Web, acrescentou-se um segundo nível, acima daquele, permitindo a ligação ("links") entre documentos. E agora estamos iniciando um terceiro nível, em que o valor está na ligação entre os dados existentes nos documentos (ligações entre os dados relativos a coisas, pessoas, etc.). É a chamada Web Semântica.

Vejam este exemplo do começo da chegada da web semântica: o Google acaba de lançar uma outra API, a Social Graph API. Ela permite encontrar pessoas relacionadas a você, através de links existentes na web. Estas relações estão explicitamente expressas nos links para seus amigos nas diversas redes sociais, mas também podem ser obtidas através de links criados em sites pessoais, blogs, etc.. Basta que estes links estejam usando certas tags de padrões simples (FOAF, XFN) que explicitam serem estes links ligações entre páginas de pessoas. Num blog meu, uma tag "me" indica que estou criando um link para uma página que também é minha, uma tag "friend" indica que estou linkando para uma página de uma pessoa relacionada a mim. São links que tem sentido, semântica. Este é um exemplo de como as redes sociais tem mais a oferecer do que o papel que exerceram até hoje.

Outra importante indicação do aumento da importância das redes sociais está em recente entrevista de executiva do Google. Ela expõe a intenção de futuramente evoluir seus sofisticados algoritmos de busca. Poderão apresentar os resultados de uma busca de forma individualizada, aumentando a relevância dos sites mais cotados na rede social da pessoa que está fazendo a busca.  Será a busca social ("social search"). Para não ficar só no Google existem outras ferramentas de busca trilhando caminhos parecidos.

Outras iniciativas recentes devem estimular as pessoas, especialmente o grande público menos engajado, a utilizar mais as funções da internet que exigem do leitor manter uma identidade virtual na web. São o  lançamento do OpenID 2.0 (que permite a um usuário utilizar somente um único login em todos os sites que adotam o padrão OpenID) e o promissor início do grupo Dataportability.org (projeto, que recebeu a adesão de todos os pesos pesados da internet, voltado a criar padrões que garantam a um usuário poder "levar" de um site para outro seus dados já fornecidos anteriormente - suas informações pessoais, rede de amigos, fotos, avatar, opções de privacidade, etc.).

Rumo a uma "navegação social"

Voltando às aplicações sociais propriamente ditas, já existem mais novidades...

Em "tréplica" ao OpenSocial, o Facebook está tomando várias iniciativas: resolveu também abrir sua plataforma de aplicações para uso em outras redes sociais. E o Bebo, importante rede social na Inglaterra, aderiu. Detalhe: o Bebo também aderiu ao OpenSocial. O Facebook também anunciou a possibilidade de rodar suas aplicações sociais em sites externos (bem..., recapitulando, alguém cria uma aplicação, que vai rodar como um gadget dentro de uma rede social, que vai exportar este gadget para qualquer site externo...). E vão continuar ampliando as funcionalidades oferecidas pela sua plataforma.

Já do outro lado... Sites dos mais diferentes assuntos (games, negócios digitais, música) tem sido lançados incluindo funcionalidades de rede social. Para isto exigem que o leitor (re)construa sua rede social em cada um deles. Uma possível solução para este problema citei acima - poderá vir com o projeto Dataportability.

O OpenSocial oferecerá outra solução. Uma futura evolução desta API permitirá a um site qualquer acessar diretamente a relação de amigos do leitor, que estará guardada em uma rede social indicada por ele. Com estas informações, as mesmas interações entre amigos que vão acontecer agora com as aplicações sociais, poderão futuramente acontecer em qualquer site da internet. Imagine que você vai a um site de comércio eletrônico para comprar um livro, mas você está em dúvida de qual comprar (apesar de todas as formas de recomendação automatizadas adotadas atualmente). Você então indicará ao site qual a rede social que você utiliza. Respeitadas as opções de privacidade e segurança suas e dos seus amigos, você poderá acessar as recomendações e avaliações feitas pelos seus amigos que também tenham acessado a rede social a partir daquele site de comércio eletrônico.

Portanto a sua rede de amigos poderá estar acessível através de toda a internet. Poderíamos chamar a isto de uma navegação social.

Estas evoluções estão acontecendo a cada semana. É como acompanhar uma criança pequena crescendo. E tudo o que foi citado acima aconteceu, foi escrito ou divulgado há menos de 1 ano - a maioria há menos de 6 meses!

E o Brasil?

O fenômeno da adesão massiva dos usuários de internet de um país às redes sociais foi pioneirismo brasileiro. O Orkut "aconteceu" por aqui 2 a 3 anos antes do MySpace, e depois o Facebook, estourarem nos EUA. Então o Facebook inovou com a criação das aplicações sociais. Agora, através do OpenSocial, chegou a vez do "nosso" Orkut. Teremos nós aqui, novamente, um papel de destaque em se tratando de uso social da internet?

Em breve retornaremos ao assunto do OpenSocial.

Web Analytics - medir para gerenciar

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2007]

"Web Analytics é a medição, coleta, análise e divulgação de dados de internet com o propósito de entender e otimizar o uso da web", é o que diz a Web Analytics Association.

A internet é um meio de comunicação que permite, como nenhum outro, que o seu uso pelos internautas seja acompanhado detalhadamente. No limite, todos os cliques feitos por cada visitante de um site podem ser registrados e analisados, tanto de forma consolidada com os cliques dos demais visitantes, como até mesmo individualmente.

A profusão de dados disponíveis, com suas diversas possibilidades de geração de informações relevantes, aliada às muitas particularidades técnicas existentes na navegação na web, e também ao natural amadurecimento do mercado de internet, levaram ao surgimento de um novo profissional dentro das empresas destinado a executar o trabalho definido acima.

A análise de audiência sempre foi realizada por diversos profissionais envolvidos com sites: pessoal de conteúdo, criação, marketing, tecnologia. E certamente continuará sendo. Porém, muitos grandes sites atualmente contam com profissionais especializados no cumprimento deste papel.

Nos Estados Unidos esta nova função foi batizada de web analyst, ou web analytics professional. Em português podemos chamá-lo de profissional de métricas (mas talvez seja uma denominação simplista) ou traduzi-lo para analista de web (o que não define nada...). Em 2002 foi criada nos Estados Unidos a WAA - Web Analytics Association, que reúne profissionais deste campo.

Análise dos cliques

A ferramenta básica deste profissional são os relatórios gerados pelos softwares de análise da navegação dos leitores do site. Existem dezenas destes softwares. Exemplos: WebTrends, Certifica, Google Analytics. Os relatórios permitem visualizar um grande número de informações, além das mais conhecidas "paginas vistas", "visitantes únicos" e "sessões de visitação". O profissional de métricas deve definir os relatórios desejados, para que ele próprio e todos os demais envolvidos com o site possam buscar as informações que desejam.

Uma análise detalhada dos relatórios poderá revelar, por exemplo, links que são pouco clicados, e que portanto merecem ser melhorados ou substituídos. Ou então, páginas em que os leitores costumam abandonar a navegação no site, o que pode indicar algum problema de usabilidade.

Mas também devem ser buscadas as informações mais estratégicas, como as mais relevantes alterações na audiência, quais mudanças significativas ocorreram num determinado período de tempo, identificar as origens das visitas ao site, etc. As melhores ferramentas também permitem visualizar os dados por segmentos de visitantes, dando luz a informações ainda mais úteis.

Outras formas de medir

Outras ferramentas e técnicas podem ser utilizadas para analisar de forma mais ampla um site.

- Teste A/B e teste com múltiplas variáveis

A qualidade da interface de um site com o seu leitor (me refiro à arquitetura da informação, usabilidade, texto, design) é obviamente fator determinante para seu sucesso. Mesmo os mais experientes profissionais de internet dificilmente conseguirão sempre prever qual a melhor forma de se construir uma determinada página. As técnicas de teste citadas consistem em colocar em produção, durante um período de tempo, diversas versões de uma mesma página, a fim de analisar qual delas alcança os melhores resultados com o público real do site. É uma técnica especialmente relevante para ser aplicada em páginas que convidam o leitor à interação: processos de compra, de cadastramento, de participação em blogs e comunidades.

- Análise do resultado de campanhas de divulgação do site

Campanhas de divulgação do site, feitas através de banners, anúncios de texto (search engine marketing), email marketing, afetam a audiência do site e devem ser medidas. De forma semelhante aos testes A/B, existem técnicas e ferramentas que permitem identificar em tempo real as boas campanhas, que podem ser ampliadas, e as de pouco retorno, que devem ser imediatamente alteradas ou descontinuadas.

- Datawarehouse

Todos os dados relativos à utilização do site por seus leitores podem ser reunidos em um datawarehouse: os cliques de navegação, o cadastro de leitores, as interações dos leitores, etc. Desta forma podem ser obtidos cruzamentos de dados que os softwares de análise de navegação não podem fornecer.

- Datamining

Algoritmos de mineração de dados atuando sobre as informações reunidas no datawarehouse poderão identificar padrões de navegação desconhecidos, classificar os leitores em grupos com navegação semelhante, fazer predições sobre o comportamento futuro de leitores baseado no histórico acumulado, etc.

- Pesquisas com visitantes

As informações obtidas a partir dos dados da navegação tem um limite. Com elas não podemos saber exatamente a opinião dos leitores sobre o nosso site. Na internet podemos criar, com relativa facilidade, pesquisas de satisfação do cliente, obtendo com isto uma importantíssima análise qualitativa do serviço oferecido ao internauta. No mundo "físico" pesquisas semelhantes seriam mais caras e mais demoradas de implementar.

- Análise competitiva

Não basta olhar para o próprio umbigo. No cenário altamente competitivo da internet, é importante comparar a qualidade do nosso site com a dos concorrentes, e mesmo com não-concorrentes que sirvam de modelo. Realizar avaliações das funcionalidades oferecidas, design, usabilidade, conteúdo, etc., para identificarmos nossos pontos fortes e fracos.

E claro, comparar também a audiência. Este é um ponto polêmico na internet, pois os números divulgados pelos diferentes sites não são auditados e podem conter diferenças de critério de apuração. A forma mais aceita para esta comparação é através de pesquisa de painéis - amostra de internautas representativa do conjunto de usuários nacionais, que são monitorados em seus computadores pessoais. No Brasil é realizado pela Ibope/NetRatings. Uma limitação atual é que no nosso caso o painel apura apenas acessos feitos em residências, deixando de fora outros locais como empresas e locais públicos (escolas, lanhouses).

O dia a dia

Além de estar munido dos dados coletados com as ferramentas e técnicas citadas acima, o profissional de métricas tem que estar plenamente informado das estratégias do site e do mercado no qual ele se insere.

Com este conhecimento, deverá identificar quais são os mais importantes indicadores a serem monitorados periodicamente. E na parte mais subjetiva do trabalho, ter percepções ("insights") que agreguem valor ao site. Tudo isto deve ser reportado de forma clara e convincente para os demais profissionais envolvidos com o site.

Na próxima semana, de 7 a 9 de maio de 2007, a WAA vai realizar em São Francisco, EUA, o sexto Emetrics Summit, onde todos estes e outros temas serão discutidos. Lá estarão, na condição de "gurus", quatro nomes que muito influenciam o campo de "web analytcs": Jim Sterne e Bryan Eisenberg, fundadores da associação, tem maior foco em marketing, Eric Peterson, com perfil mais técnico e Avinash Kaushik, com grande visão estratégica e estrela ascendente no meio.

Começamos este post com a definição da WAA para esta atividade. A minha definição é mais simples: Web Analytics é a análise de números que revelam como as pessoas usam a internet.

Gostaria de saber mais como este tema está sendo tratado atualmente no Brasil. Você trabalha em uma empresa que possui um site? Como este assunto é tratado em sua empresa? Como você vê o desempenho desta função no Brasil?


Personalização de sites

[Publicado no blog Beta do site do Globo em 2006]

A internet é um meio de comunicação com a característica única de ser ao mesmo tempo de massa (de 1 para muitos) e individual (de 1 para 1). Mas se pensarmos nos sites web, a maior parte deles tem uma única versão para todos os seus leitores. Uma web em que os sites se moldem aos interesses de cada leitor será a plena realização de um potencial intrínseco da internet.

Por quê personalizar?

Porque paradoxalmente a extraordinária quantidade de informação hoje já disponível na internet é um obstáculo a que consigamos acessá-la de forma eficiente. É necessário que a tecnologia da informação ajude cada vez mais o leitor a encontrar os conteúdos de seu interesse. E até mesmo aqueles conteúdos que, por não conhecê-los, ainda não são do seu interesse....

Muitos sites possuem tanto conteúdo que uma página inicial genérica não facilita a que seu visitante o usufrua de forma ampla. Um site personalizado tenderá a aumentar a navegação do leitor e estimulará o seu retorno posterior. Num site de comércio eletrônico a oferta personalizada de produtos poderá reverter em mais vendas.

Mas há controvérsias... Jakob Nielsen, guru da usabilidade, acha que é melhor para o internauta um site com boa usabilidade do que um site personalizado. Eu concordo! Uma boa usabilidade é um requisito primordial para um bom site. Mas num mercado altamente competitivo, creio que isto não será o suficiente.

Quando?

Lá pelos idos de 1999 "personalização" era uma das "buzz words" da moda na internet. O site da Amazon surpreendia com suas recomendações personalizadas de livros e muitas empresas americanas, no auge da bolha da internet, investiram pesado nesta direção. Mas as formas mais sofisticadas de personalização exigem muito investimento e, junto com o estouro da bolha, muitos projetos de personalização não deram o retorno esperado. O tema passou a ser mal visto. Saiu da moda.

Mas algumas coisas não "pegam" de imediato, só com o tempo. Exemplos? sites de comunidades, RSS, etc. Acredito que com o tempo os internautas vão cada vez mais demandar que os sites exibam conteúdos adequados aos seus interesses individuais.

E chegará o momento em que o retorno gerado pelos sites em geral justificará o investimento em personalização. Apesar do passado duvidoso, no presente a personalização já tem dado alto retorno a muitos sites de e-commerce.

Como personalizar?

É difícil fazer um site personalizado? Na sua forma mais simples, não. É só fazer um site onde o leitor escolhe se prefere o assunto A ou o B, e esta informação é gravada, por exemplo, num cookie. Depois, toda vez que o leitor requisitar a página inicial do site o sistema no servidor lê o assunto preferido no cookie, lê do banco de dados o conteúdo A ou B e exibe na tela.

Mas cito aqui duas dificuldades para a implementação de personalização.

1- A carga que soluções baseadas em banco dados geram nos servidores, quando se trata de sites de grande acesso.

Não tem jeito, soluções de personalização mais complexas exigirão grande capacidade de processamento, tanto de banco de dados quanto da aplicação no servidor. Isto tem um custo.

Mas conforme citamos em post anterior muitas soluções de personalização permitem que o processamento seja feito de forma distribuída, exigindo processamento apenas do browser de cada leitor. Para isto informações de preferência ou perfil do leitor podem ser gravadas em cookie e o browser comanda seletivamente o carregamento dos conteúdos personalizados (que já deverão estar previamente gerados no servidor).

2- A questão da escolha do conteúdo a ser exibido para o leitor.

Em muitos casos o melhor é o óbvio: permitir que o leitor escolha explicitamente o que deseja. Melhor ainda se a escolha puder ser feita de forma intuitiva, diretamente na área a ser personalizada. Se o leitor tiver que navegar até página específica, ler uma explicação e ter que fazer diversas escolhas de conteúdo, uma parte do público não a utilizará - mesmo quando o benefício oferecido for grande. Usabilidade...

Para estender os benefícios da personalização a toda a audiência, a TI também pode assumir para si o trabalho da escolha do conteúdo a ser personalizado.

Um site muito grande pode exibir com mais destaque para o leitor links para seções que ele mais costuma visitar. Ou destacar conteúdos que provavelmente interessam ao perfil demográfico dele (futebol para homens, shows para jovens, etc.).

Algumas destas possibilidades podem ser implementadas de forma mais simples, (inclusive com processamento apenas no browser). Mas é neste terreno de escolha do conteúdo que surgem as aplicações de personalização mais complexas, chamadas de sistemas de recomendação.

Sistemas de recomendação

Existem diversos tipos de sistemas que tem a capacidade de recomendar conteúdo. Dois deles são os mais utilizados: Filtragem Baseada em Conteúdo e Filtragem Colaborativa. Existem diversos algoritmos diferentes para implementar cada um deles, e ainda diferentes possibilidades de combinar ambos num mesmo sistema, para que os pontos fortes do primeiro melhorem os pontos fracos do segundo, e vice versa. Existem algumas soluções em software livre.

Filtragem Baseada em Conteúdo (FCB):

Este tipo se aplica à recomendação de textos. Descrevendo de forma resumida, o sistema registra as palavras dos textos lidos pelo visitante. Quando um novo texto é publicado, é verificado se ele tem uma "quantidade" grande de palavras semelhantes às dos textos que o visitante costuma ler. Se sim, o novo texto deverá ser recomendado para o leitor.

Filtragem Colaborativa (FC):

Este tipo se aplica à recomendação de qualquer tipo de item (CD, restaurante, filme, etc). Ele tem o nome de colaborativo porque é baseado nas preferências em comum de grupos de pessoas.

Também descrevendo de forma resumida: primeiro o sistema coleta informações das preferências de um leitor (através de perguntas explícitas ou por monitoramento da navegação). Depois identifica um grupo de pessoas com preferências semelhantes às dele, e daí identifica itens bem avaliados por este grupo e que ainda não tenham sido avaliados/acessados pelo leitor. Estes serão os itens recomendados.

Cada tipo tem seus prós e contras. Em geral o filtro baseado em conteúdo faz boas recomendações com mais frequência. Já o filtro colaborativo, o mais utilizado, caracteriza-se por conseguir fazer recomendações ótimas (e mesmo surpreendentes), embora não tão frequentemente.

Para aprofundar o tema, agora eu é que faço recomendações:
- O livro "Personalização na Internet", de Roberto Torres, que faz um panorama sobre sistemas de recomendação.
- O site http://movielens.umn.edu. É um site onde você dá notas para filmes que você já viu e ele oferece recomendações personalizadas, baseado na técnica de filtragem colaborativa. O site é mantido pela universidade de Minnesota, que o utiliza para desenvolver pesquisas na área de sistemas de recomendação. Atualmente estão pesquisando a capacidade que os sistemas de filtragem colaborativa possuem, de identificar grupos de pessoas com preferências em comum, para estimular entre elas a criação de comunidades virtuais.