O surgimento das aplicações sociais, que promovem a interação do usuário com sua rede de amigos, é um marco na direção de um papel de maior importância reservado às redes sociais na internet.
Dentre muito em breve os usuários do Orkut poderão acrescentar em seus perfis pessoais, aplicações (programas) criadas por outros sites ou por desenvolvedores autônomos. Estas aplicações, que ocuparão um espaço da tela do Orkut, poderão trazer para este site conteúdos já existentes em outros sites. Esta forma de integrar num site conteúdo externo a ele não é uma novidade na web, e a estas aplicações se dá o nome de widget ou gadget.
A novidade é que o Orkut vai no mesmo momento copiar o passo além que a rede social americana Facebook deu em maio de 2007. A idéia foi permitir que estas aplicações, que rodam dentro do seu site, acessem a relação de amigos do usuário que está logado. Com isto, estas aplicações podem criar as mais diversas funcionalidades de interatividade entre estes amigos.
Com isto vimos uma poderosa integração de dois importantes conceitos já existentes na web - redes sociais e widgets - gerando um novo conceito: as aplicações sociais.
OpenSocial é o nome dado pelo Google à sua iniciativa de criar um padrão para o desenvolvimento de aplicações sociais. É uma reação ao grande sucesso que o Facebook obteve com sua brilhante idéia. O OpenSocial está sendo desenvolvido em conjunto com inúmeras outras redes sociais além do Orkut: MySpace, LinkedIn, Friendster, Hi5, Salesforce.com, etc.
Tecnicamente falando, Open Social é o conjunto de APIs que permitem a uma aplicação acessar a relação de amigos do usuário, seus dados e fazer interatividade entre eles. Esta nova API (que está para ser lançada na versão 0.7) para ser utilizada necessita de outra API já mais "antiga", a do Google Gadget. Diferentemente da plataforma oferecida pelo Facebook, na proposta do Google as aplicações são codificadas em Javascript e processadas no browser do leitor. É possível ter uma aplicação de sucesso rodando a custo zero de infra-estrutura (arquivos hospedados num site gratuito do Google, processamento das apis rodando no Orkut e a aplicação rodando no browser do leitor). Os desenvolvedores autônomos são responsáveis por grande parte das aplicações. Algumas empresas de desenvolvimento de software foram criadas exclusivamente para o desenvolvimento destas aplicações - são inclusive as donas de várias das aplicações de maior sucesso.
Para que serve?
Testes de conhecimento feitos entre amigos para ver quem faz mais pontos, versões digitais dos antigos jogos de tabuleiro, troca de "presentes virtuais", questionários para identificar os amigos com mais/menos afinidades. A grande maioria das aplicações mais utilizadas atualmente no Facebook é de entretenimento (alguns diriam de futilidades...). Existem também as aplicações vinculadas a sites já existentes na web, promovendo interatividade em torno do conteúdo destes sites. Dentro do universo de mais de 17.000 aplicações disponíveis hoje, existe espaço para tudo.
2007 foi um ano de crescimento espetacular do Facebook, em grande parte por causa das aplicações sociais. Na virada para 2008 a audiência do site começou a estabilizar nos EUA e algumas aplicações começaram a cair em desuso. Passada a empolgação inicial, talvez tenhamos agora o sucesso de outros tipos de aplicação. O tempo dirá.
Para um site web, da mesma forma que rss, newsletters, sites móveis, widgets "não sociais", as aplicações sociais são mais uma maneira de difundir seu conteúdo e marca, e atrair audiência. No Facebook, como também será no Orkut, as aplicações sociais podem veicular publicidade, desde banners até links patrocinados.
O sentido das coisas
"The Net links computers, the Web links documents. Now, people are making another mental move. (...) 'It's not the documents, it is the things they are about which are important'." Tim Berners-Lee
Tim Berners-Lee, o inventor da WorldWideWeb, escreveu recentemente um post em que formula que a internet, em seu primeiro momento, era uma ligação entre computadores (o que permitia p.ex. a troca de mensagens e a leitura de textos simples). Quando ele inventou a Web, acrescentou-se um segundo nível, acima daquele, permitindo a ligação ("links") entre documentos. E agora estamos iniciando um terceiro nível, em que o valor está na ligação entre os dados existentes nos documentos (ligações entre os dados relativos a coisas, pessoas, etc.). É a chamada Web Semântica.
Vejam este exemplo do começo da chegada da web semântica: o Google acaba de lançar uma outra API, a Social Graph API. Ela permite encontrar pessoas relacionadas a você, através de links existentes na web. Estas relações estão explicitamente expressas nos links para seus amigos nas diversas redes sociais, mas também podem ser obtidas através de links criados em sites pessoais, blogs, etc.. Basta que estes links estejam usando certas tags de padrões simples (FOAF, XFN) que explicitam serem estes links ligações entre páginas de pessoas. Num blog meu, uma tag "me" indica que estou criando um link para uma página que também é minha, uma tag "friend" indica que estou linkando para uma página de uma pessoa relacionada a mim. São links que tem sentido, semântica. Este é um exemplo de como as redes sociais tem mais a oferecer do que o papel que exerceram até hoje.
Outra importante indicação do aumento da importância das redes sociais está em recente entrevista de executiva do Google. Ela expõe a intenção de futuramente evoluir seus sofisticados algoritmos de busca. Poderão apresentar os resultados de uma busca de forma individualizada, aumentando a relevância dos sites mais cotados na rede social da pessoa que está fazendo a busca. Será a busca social ("social search"). Para não ficar só no Google existem outras ferramentas de busca trilhando caminhos parecidos.
Outras iniciativas recentes devem estimular as pessoas, especialmente o grande público menos engajado, a utilizar mais as funções da internet que exigem do leitor manter uma identidade virtual na web. São o lançamento do OpenID 2.0 (que permite a um usuário utilizar somente um único login em todos os sites que adotam o padrão OpenID) e o promissor início do grupo Dataportability.org (projeto, que recebeu a adesão de todos os pesos pesados da internet, voltado a criar padrões que garantam a um usuário poder "levar" de um site para outro seus dados já fornecidos anteriormente - suas informações pessoais, rede de amigos, fotos, avatar, opções de privacidade, etc.).
Rumo a uma "navegação social"
Voltando às aplicações sociais propriamente ditas, já existem mais novidades...
Em "tréplica" ao OpenSocial, o Facebook está tomando várias iniciativas: resolveu também abrir sua plataforma de aplicações para uso em outras redes sociais. E o Bebo, importante rede social na Inglaterra, aderiu. Detalhe: o Bebo também aderiu ao OpenSocial. O Facebook também anunciou a possibilidade de rodar suas aplicações sociais em sites externos (bem..., recapitulando, alguém cria uma aplicação, que vai rodar como um gadget dentro de uma rede social, que vai exportar este gadget para qualquer site externo...). E vão continuar ampliando as funcionalidades oferecidas pela sua plataforma.
Já do outro lado... Sites dos mais diferentes assuntos (games, negócios digitais, música) tem sido lançados incluindo funcionalidades de rede social. Para isto exigem que o leitor (re)construa sua rede social em cada um deles. Uma possível solução para este problema citei acima - poderá vir com o projeto Dataportability.
O OpenSocial oferecerá outra solução. Uma futura evolução desta API permitirá a um site qualquer acessar diretamente a relação de amigos do leitor, que estará guardada em uma rede social indicada por ele. Com estas informações, as mesmas interações entre amigos que vão acontecer agora com as aplicações sociais, poderão futuramente acontecer em qualquer site da internet. Imagine que você vai a um site de comércio eletrônico para comprar um livro, mas você está em dúvida de qual comprar (apesar de todas as formas de recomendação automatizadas adotadas atualmente). Você então indicará ao site qual a rede social que você utiliza. Respeitadas as opções de privacidade e segurança suas e dos seus amigos, você poderá acessar as recomendações e avaliações feitas pelos seus amigos que também tenham acessado a rede social a partir daquele site de comércio eletrônico.
Portanto a sua rede de amigos poderá estar acessível através de toda a internet. Poderíamos chamar a isto de uma navegação social.
Estas evoluções estão acontecendo a cada semana. É como acompanhar uma criança pequena crescendo. E tudo o que foi citado acima aconteceu, foi escrito ou divulgado há menos de 1 ano - a maioria há menos de 6 meses!
E o Brasil?
O fenômeno da adesão massiva dos usuários de internet de um país às redes sociais foi pioneirismo brasileiro. O Orkut "aconteceu" por aqui 2 a 3 anos antes do MySpace, e depois o Facebook, estourarem nos EUA. Então o Facebook inovou com a criação das aplicações sociais. Agora, através do OpenSocial, chegou a vez do "nosso" Orkut. Teremos nós aqui, novamente, um papel de destaque em se tratando de uso social da internet?
Em breve retornaremos ao assunto do OpenSocial.
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